Pierre Weil, em sua obra "Amar e Ser Amado" descreve vários tipos de amor: o amor genital, o amor sensual, o amor transferencial e o amor motivacional.
Amar é assistir. Assistir no sentido de que o outro é a essência da existência do amor, para o qual focamos nossas energias, desejos e cumplicidades. Sem o outro, não há amor, não há experiência e portanto, sua presença é essencial, pois somente com ela é que temos assistida nossa necessidade de amar.
Mesmo o amor genital, apenas focado no processo sexual, na utilização do outro enquanto objeto de saciedade instintiva, encontra a questão da assistência na presença do corpo do outro.
No amor sensual, no qual o outro ultrapassa a esfera genital e participa em nossa vida enquanto parceiro da vivência de uma gama de prazeres sensuais, sua presença passa a ser essencial nas trocas de carinho, de olhares, nos jogos da sedução, nas cumplicidades veladas e nas experiências compartilhadas.
No amor transferencial, a presença do outro é a ponte para que possamos acessar ao acervo de emoções, afetos e conforto, apreendidos em nosso inconsciente desde a tenra idade, quando nossos pais, por seu amor, ensinam-nos como amar.
No amor motivacional, o outro também nos assiste, ao compartilhar os mesmos gostos, pela estética, pelo trabalho, pelos filhos, pelo sucesso, pela gastronomia ou pelos hobbies. Sem o outro, ficamos desassistidos nessas vivências.
Como disse Sartre, "o inferno é o outro". Mas sem o outro, como saberíamos o que significa o inferno? Até nesse ponto o outro nos assiste e seu espelho é essencial ao enfrentamento de nossas sombras.
Aprender a amar é aprender a assistir. Transformar o sapo em príncipe, pois só com o príncipe pode-se aprender a superar as vicissitudes da vida e atingir ao céu de brigadeiro fantasiado nos contos de fada, se isso é realmente o que se quer...
AmorDireito
Mediação de Casais, Famílias e Psicanálise Individual
Aplicações da Mediação Familiar e da Psicanálise do Amor
A Mediação Familiar pode ser aplicada em três áreas específicas:
I. Casais;
II. Familiares;
III. Sucessória.
Aplica-se no primeiro caso, a casais em fase de divórcio que pretendam resolver pendências relativas à guarda dos filhos e à divisão de bens, com vistas ao estabelecimento de uma relação amigável e pacífica para o futuro de todos.
Aplica-se, no segundo caso, a familiares, pais e filhos, irmãos e outros membros da família, envolvidos em pendências relativas à habitação, sociedade empresarial ou questões patrimoniais, com vistas à pacificação das relações familiares.
Aplica-se, no terceiro caso, a familiares que necessitem amparo às questões decorrentes da perda do ente familiar querido e suporte para a mediação sucessória e as negociações relativas às pendências decorrentes da partilha dos bens.
A Psicanálise do Amor pode ser aplicada a:
I. Atendimento individual visando o acompanhamento individual dos procedimentos de Mediação Familiar;
II. Atendimento individual visando à terapêutica de questões afetivas envolvendo relacionamentos.
Mediação e Privacidade
A mediação nasce dentro da idéia de liberdade contratual, privacidade e autonomia privada, ao permitir que as partes, em comum acordo negociado de vontades, criem soluções para os conflitos apresentados, cujo conhecimento só a elas interessa saber e resolver.
Para tanto, a mediação familiar garante um espaço privado de negociação e facilitação do acerto. O mediador familiar é um técnico habilitado ao auxílio de ambas as partes, interagindo e auxiliando na busca de uma solução pacífica para o melhor para todos, de maneira rápida, eficaz, de baixo custo e com sigilo profissional.
Desse modo, o mais importante na proposta da mediação é a possibilidade do acordo privado, que somente ocorrerá por livre disposição dos interesses das partes, de maneira a atendê-las em suas demandas negociadas. Ou seja, a decisão do conflito cabe exclusivamente à decisão privada das partes.
Outrossim, o atendimento personalizado do mediador familiar permite, na esfera emocional, a possibilidade de auto-expressão das partes, em demonstrar suas necessidades e realizar os ajustes e concessões que achar possíveis para a resolução do conflito. Isso ocorre porque o princípio do “afeto” é um dos pilares do trabalho mediativo. Especificamente na mediação familiar, o princípio do “afeto” significa a busca por pacificidade íntima, com vistas a liberar as partes de uma situação de conexão emocional e energética desequilibrada, devido ao conflito instalado.
Em suma, a mediação familiar é uma opção a ser pensada quando o conflito envolve assuntos de cunho pessoal, íntimo e emocional, para o qual uma demanda judicial seria inconveniente à privacidade do grupo familiar. Nesse sentido, a mediação pode colaborar para que, no âmbito familiar, especialmente envolvendo casais ou aspectos sucessórios em família, as partes sejam as únicas a saberem e a decidirem sobre as situações existentes, envolvendo a privacidade e o afeto.
Fases da Relação e Terapia
Formar um casal, encontrar alguém especial com quem dividir os sonhos, desejos e prazeres talvez seja o mais sublime momento de alteridade na vida de um ser humano. Pode-se dizer isso porque a relação que se estabelece entre um casal é um vínculo embasado somente no afeto, em concessões, em cumplicidades espontâneas, contínuas e diárias. Isso diferencia a relação do casal das demais relações de família, as quais surgem por vínculos biológicos, eternos e insubstituíveis.
A situação do casal é um estado de permanente re-significação, uma permanente aprendizagem, de avaliação bilateral deste vínculo. Assim, a duração do vínculo depende da vontade dos envolvidos, num campo de subjetividades e complexidade amplo, a cada dia reconstruído.
Por isso, manter uma relação de casal, por meio de casamento, união estável, união do mesmo sexo, namoro, ou tantas outras possibilidades, requer dedicação, que só é recompensada se o prazer decorrente da relação estiver acima de qualquer fardo ou anulação dela decorrente.
Esse é o conteúdo do verbo amar, motor da alteridade fundada num processo de contínua aprendizagem. Em se tratando de sentimentos, de vida a dois, nada é tão fácil, nada é simples, tudo envolve um grande conjunto de variáveis possíveis intra e externas. Gerenciar essa complexidade é responsabilidade do casal, ao terapeuta envolvido, cabe o papel de facilitador, de mediador, para que o melhor aconteça dentro das possibilidades existentes.
No início de toda relação, a aproximação de duas pessoas é geralmente marcada pela admiração com que se observa o outro. Esse desejo por estar, no plano consciente, ligado à estética do outro, à sua intelectualidade, candura, alegria, gentileza, profissão, situação social etc.
Mas é no plano inconsciente que o vínculo de afinidades é formado. Esse vínculo é ancestral e multifatorial e não há uma causa única passível de ser discriminada como orientadora da nossa busca por afeto. Daí que amar é algo extremamente individualizado e inconsciente.
Simploriamente, o amar começa no momento do encontro, pois é a partir daí que os conteúdos conscientes e inconscientes irão embasar a atração por aquela determinada pessoa. Mas serão os elementos inconscientes, muitas vezes não sabidos pelo casal, os quais irão influenciar a sorte ou o fracasso dessa nova relação.
Contra esse determinismo inconsciente,o casal faz, desde o início, a sua própria dinâmica de ajustes e concessões entre partes. Isso ocorre gradualmente, no transcorrer das vivências, momento em que acordos expressos e implícitos são aceitos e passam a ditar o equilíbrio da relação.
Não há como se medir a duração dessa fase contratual autopacificadora, que pode durar por toda a vida. Há casais que passar uma vida juntos e são capazes de fazer os ajustes necessários (concessões e reciclagens) à manutenção de sua homeostase (equilíbrio), até muito tempo depois das bodas de ouro.
O problema ocorre quando esse sistema contratual falha ou perde seu poder de atuação, as crises ganham gravidade e os pontos de alarme da relação são ativados. Entende-se como ponto de alarme, o momento de crise em que a ausência de prazer ou desprazer da relação transcende o prazer. Nesse estágio, a satisfação obtida na relação é menor do que o estresse causado por aquela convivência e o sistema de ajustes e concessões começa a perder seu efeito por essa ausência de motivação(prazer)na sua realização.
Inicialmente, os pontos de alarme podem gerar as defesas da relação, voltadas à tentativa do reestabelecimento do equilíbrio. Os indícios do início dessa fase das defesas da relação podem ser diversos, pois o casal em crise irá utilizar-se inconscientemente de recursos externos para evitar a crise. Dentre esses recursos, para manter a relação e evitar a ausência de prazer ou o desprazer da relação estão: a) subterfúgios ou fugas subjetivas: inclusão de um terceiro na relação (novo filho, amante, trazer a sogra para morar junto); b) subterfúgios ou fugas objetivas: focar-se no trabalho, no excesso de alimentação, no uso de drogas, consumismo, viagens. Tais defesas podem retardar por anos e décadas o enfrentamento das dificuldades do casal e acabar por forçá-los a entrar, futuramente, na última fase da relação: fase do recomeço.
A última das fases representa a acentuação da ausência de prazer ou do desprazer do casal, com o relacionamento. As medidas de defesa não mais surtem o efeito de “abafar” as crises e o casal passa então a viver em permanente ou em recorrente crise de convivência. Nem mesmo os mecanismos de defesa da fase anterior surtem mais efeitos, pois ambos, ou somente um dos integrantes do casal, acaba por eleger a relação enquanto o problema maior de sua vida.
Esse é o momento crítico da relação e requer que o diálogo sincero seja estabelecido, até em respeito por tudo o que foi positivamente construído conjuntamente.
Numa relação construída em raízes sólidas, essa será a hora em que o respeito mútuo será necessário e colocado à prova, momento em que o casal poderá avaliar a oportunidade de iniciar um acompanhamento terapêutico visando a separação ou a reciclagem do relacionamento. Nesse sentido e em ambos os casos, a fase da separação sempre será também a fase do recomeço. Recomeço para ambos, ao decidirem manter o vínculo, redefinindo criativamente novos desafios e formas de relacionar-se, ou a iniciarem novos caminhos individuais em suas vidas.
Afeto e Mediação Familiar
Por afeto deve ser entendido tudo o que advém de outrem e afeta o ser humano em suas emoções, ocasionando a erupção de sentimentos muitas vezes descritos enquanto amor, ódio, alegria, felicidade, tristeza. A diferença entre emoções e sentimentos está no fato de que as emoções são instintivas, nascem com os indivíduos, ao exemplo do medo, enquanto os sentimentos são aprendidos e dependem das influências culturais e da simbologia dada às relações humanas em uma determinada comunidade.
Costuma-se confundir amor com afeto. Não obstante essa confusão coloquial, a diferença está no fato de que o amor é um tipo de afeto, assim como o é, sua antítese, o ódio. Seriam duas faces da mesma moeda, expressos no gênero afeto, pois tanto o amor quanto o ódio afetam o indivíduo e a relação entre ambos é expressamente estabelecida. Quem ama pode odiar e quem odeia pode amar. Essa frase representa uma dualidade que não pode ser esquecida, especialmente ao se tratar da seara de conflitos familiares.
Nesse ponto que a mediação familiar alcança o seu locus funcional. Muitas vezes confundida com um mero “aconselhamento”, no qual qualquer pessoa dotada de boa vontade estaria apta a interagir para resolver a crise afetiva, a mediação familiar e sucessória requer o conhecimento e o domínio da técnica mediativa. Requer a possibilidade de se aplicar conhecimentos interdisciplinares, dentro de uma perspectiva que envolva outras áreas do conhecimento, notadamente o Direito, a Psicanálise, a Psicologia, a Psiquiatria e a Sociologia.
Amar Direito, AmorDireito
Todos os relacionamentos afetivos começam pelo prazer. Não há relação duradoura entre seres humanos que persista sem o prazer convivido entre as partes. Nada mais sublime e feliz do que o surgimento do amor, da sensação de ser amado, da idealização do companheiro, da fantasia de estar realizado com o objeto do amor ao seu lado.
Segundo Freud, o nascimento transforma os indivíduos em seres faltantes, em busca constante de um estado de prazer, conforto e completude uterina que não mais será atingido, salvo na vivência do amor. Mas para amar, precisa-se do outro, daí o paradoxo dessa busca, pois assim como no outro se encontra o prazer, nele também está o desprazer.
Segundo Freud, o nascimento transforma os indivíduos em seres faltantes, em busca constante de um estado de prazer, conforto e completude uterina que não mais será atingido, salvo na vivência do amor. Mas para amar, precisa-se do outro, daí o paradoxo dessa busca, pois assim como no outro se encontra o prazer, nele também está o desprazer.
Num tempo de amores líquidos e ficantes, em que se estabelece o modelo descartável dos afetos, as dificuldades em desenvolver relacionamentos duradouros e construtivos tornam evidente que o outro ainda continua sendo a peça fundamental da busca pelo prazer, mas não mais se tolera os aspectos de desprazer de sua presença.
Desse modo, assim como o prazer será o modulador inicial das relações, ele também será o modulador final delas. Sem prazer, pela ausência do outro, ou com desprazer, pelas contingências sofridas com o modo de vida atual, surge a crise dos relacionamentos e a chamada terapêutica para repensar os caminhos, por meio da Terapia Individual do Afeto.
Por outro lado, para aqueles que conseguiram construir relacionamentos felizes e virtuosos, as coisas são diferentes. Aqui as bases do relacionamento firmaram raízes fortes e maduras o suficiente para a criação de uma linha do tempo duradoura e conjunta entre duas pessoas. Nesses casos, o paradoxo é que a própria linha do tempo acaba por criar desgastes naturais da convivência, perceptíveis somente ao longo da caminhada.
A esses casais, aparenta haver dois caminhos estabelecidos. Por um lado, chegou a hora de repensar a relação, para que as construções da linha do tempo sejam reavaliadas e que uma nova agenda de prazeres e conquistas seja criada. Nesses casos, o repensar da relação está embasado em todo o prazer e respeito conquistado mutuamente, perante o qual, a crise de ausência de prazer atual, ou mesmo desprazer, são aspectos pontuais a serem corrigidos com apoio profissional. Aqui o foco não é no problema havido na relação, mas não construção criativa de soluções aptas a gerar um novo ciclo virtuoso de crescimento afetivo a ambos.
Não obstante, por outro lado, deve ficar claro que o foco da Mediação de Casais não é salvar relacionamentos. Isso poderá acontecer se as partes assim o desejarem no transcorrer dos trabalhos da mediação. Caso contrário, o caminho será outro, será o de positivar soluções acordadas para uma nova fase de vida qualitativa diversa para ambos. Aqui o escopo será de apoio da mediação às transformações da relação do casal em relação de amizade, de maneira que ambos possam manter-se em equilíbrio, mesmo trilhando caminhos diferentes a partir de então, com o desfazimento do vínculo e resolução mediada de todas as conseqüências jurídicas desse ato.
Isso pode demandar que, cada qual após a separação inicie sua Terapia Individual e redefina em terapia novos caminhos de afetividade para a sua vida.
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