Fases da Relação e Terapia

         Formar um casal, encontrar alguém especial com quem dividir os sonhos, desejos e prazeres talvez seja o mais sublime momento de alteridade na vida de um ser humano. Pode-se dizer isso porque a relação que se estabelece entre um casal é um vínculo embasado somente no afeto, em concessões, em cumplicidades espontâneas, contínuas e diárias. Isso diferencia a relação do casal das demais relações de família, as quais surgem por vínculos biológicos, eternos e insubstituíveis.
         A situação do casal é um estado de permanente re-significação, uma permanente aprendizagem, de avaliação bilateral deste vínculo. Assim, a duração do vínculo depende da vontade dos envolvidos, num campo de subjetividades e complexidade amplo, a cada dia reconstruído.
         Por isso, manter uma relação de casal, por meio de casamento, união estável, união do mesmo sexo, namoro, ou tantas outras possibilidades, requer dedicação, que só é recompensada se o prazer decorrente da relação estiver acima de qualquer fardo ou anulação dela decorrente.
         Esse é o conteúdo do verbo amar, motor da alteridade fundada num processo de contínua aprendizagem. Em se tratando de sentimentos, de vida a dois, nada é tão fácil, nada é simples, tudo envolve um grande conjunto de variáveis possíveis intra e externas. Gerenciar essa complexidade é responsabilidade do casal, ao terapeuta envolvido, cabe o papel de facilitador, de mediador, para que o melhor aconteça dentro das possibilidades existentes.   
         No início de toda relação, a aproximação de duas pessoas é geralmente marcada pela admiração com que se observa o outro. Esse desejo por estar, no plano consciente, ligado à estética do outro, à sua intelectualidade, candura, alegria,  gentileza, profissão, situação social etc.
         Mas é no plano inconsciente que o vínculo de afinidades é formado. Esse vínculo é ancestral e multifatorial e não há uma causa única passível de ser discriminada como orientadora da nossa busca por afeto. Daí que amar é algo extremamente individualizado e inconsciente.
         Simploriamente, o amar começa no momento do encontro, pois é a partir daí que os conteúdos conscientes e inconscientes irão embasar a atração por aquela determinada pessoa. Mas serão os elementos inconscientes, muitas vezes não sabidos pelo casal, os quais irão influenciar a sorte ou o fracasso dessa nova relação.
         Contra esse determinismo inconsciente,o casal faz, desde o início, a sua própria dinâmica de ajustes e concessões entre partes. Isso ocorre gradualmente, no transcorrer das vivências, momento em que acordos expressos e implícitos são aceitos e passam a ditar o equilíbrio da relação.
         Não há como se medir a duração dessa fase contratual autopacificadora, que pode durar por toda a vida. Há casais que passar uma vida juntos e são capazes de fazer os ajustes necessários (concessões e reciclagens) à manutenção de sua homeostase (equilíbrio), até muito tempo depois das bodas de ouro.
         O problema ocorre quando esse sistema contratual falha ou perde seu poder de atuação, as crises ganham gravidade e os pontos de alarme da relação são ativados. Entende-se como ponto de alarme, o momento de crise em que a ausência de prazer ou desprazer da relação transcende o prazer. Nesse estágio, a satisfação obtida na relação é menor do que o estresse causado por aquela convivência e o sistema de ajustes e concessões começa a perder seu efeito por essa ausência de motivação(prazer)na sua realização.
         Inicialmente, os pontos de alarme podem gerar as defesas da relação, voltadas à tentativa do reestabelecimento do equilíbrio. Os indícios do início dessa fase das defesas da relação podem ser diversos, pois o casal em crise irá utilizar-se inconscientemente de recursos externos para evitar a crise. Dentre esses recursos, para manter a relação e evitar a ausência de prazer ou o desprazer da relação estão: a) subterfúgios ou fugas subjetivas: inclusão de um terceiro na relação (novo filho, amante, trazer a sogra para morar junto); b) subterfúgios ou fugas objetivas: focar-se no trabalho, no excesso de alimentação, no uso de drogas, consumismo, viagens. Tais defesas podem retardar por anos e décadas o enfrentamento das dificuldades do casal e acabar por forçá-los a entrar, futuramente, na última fase da relação: fase do recomeço.
         A última das fases representa a acentuação da ausência de prazer ou do desprazer do casal, com o relacionamento. As medidas de defesa não mais surtem o efeito de “abafar” as crises e o casal passa então a viver em permanente ou em recorrente crise de convivência. Nem mesmo os mecanismos de defesa da fase anterior surtem mais efeitos, pois ambos, ou somente um dos integrantes do casal, acaba por eleger a relação enquanto o problema maior de sua vida.
         Esse é o momento crítico da relação e requer que o diálogo sincero seja estabelecido, até em respeito por tudo o que foi positivamente construído conjuntamente.
         Numa relação construída em raízes sólidas, essa será a hora em que o respeito mútuo será necessário e colocado à prova, momento em que o casal poderá avaliar a oportunidade de iniciar um acompanhamento terapêutico visando a separação ou a reciclagem do relacionamento. Nesse sentido e em ambos os casos, a fase da separação sempre será também a fase do recomeço. Recomeço para ambos, ao decidirem manter o vínculo, redefinindo criativamente novos desafios e formas de relacionar-se, ou a iniciarem novos caminhos individuais em suas vidas.